Iron Racing, 2a Etapa - Lavras Novas, as glicemias
Feb 20th, 2008 by Rafael Apocalypse
Assim como na primeira etapa do Iron Racing, vou contar aqui como minha glicemia variou ao longo da prova e minhas conclusões a respeito disso. Vale deixar claro, que durante toda a vida o diabético aprende a lidar com a doença, e nunca, nunca mesmo, podemos dizer que sabemos tudo ou que sabemos 100% como nosso organismo reage às diversas situações.
Esta etapa, como disse no post sobre a prova, foi bem peculiar, passei uma semana viajando a trabalho, comendo mal e dormindo mais mal ainda, só treinei dois dias, e cheguei de viagem na véspera da corrida. Além disso a prova foi disputada em uma cidadezinha longe de BH, onde moro, tive que sair bem cedo de casa, e isso tudo interferiu nas minhas glicemias e no meu rendimento também.
Sai de casa com uma medição de glicemia capilar em 110 mg/dl, quase duas horas depois, ao chegar em Lavras Novas [eu era o motorista dessa vez], minha glicemia mediu 63mg/dl, quase uma hipoglicemia, mas eu já sentia os efeitos, tremedeira e sudorese. Compensei essa baixa de glicose com uma porção de castanhas-do-pará e uma barra de cereal diet.
Às 11:36, depois de problemas com nossa planilha, largamos, eu e o Cláudio bastante nervosos, mesmo conversando durante a prova e nos acalmando, mais ou menos uma hora e trinta depois da largada, uma outra glicemia capilar apontava um aumento na taxa de glicose 131 mg/dl. A hiperglicemia é um recurso do organismo durante as atividades físicas, é muito comum, durante competições que diabéticos apresentem altas taxas de glicose no sangue, e ao final da prova, uma queda abrupta dessas taxas.
O aumento da taxa de glicose, durante uma competições é explicado principalmente pela adrenalina que é liberada no organismo do atleta. É importante saber disso e saber como lidar com essas altas de glicemia, para evitar que no final da prova, quando o corpo relaxar, que o atleta apresente uma queda muito acentuada e rápida da taxa de glicose. O melhor a se fazer é acompanhar o organismo, e fazer medições mais frequentes, afim de evitar que a glicose suba muito ou caia muito. Se o atleta optar por fazer uma injeção de insulina de ação rápida, ele deve ficar mais ‘esperto’ ainda com as verificações das taxas de glicemia.
Como minha glicose não apresentou uma alta em demasia, e como já conheço bem minhas reações durante períodos de stress e adrenalina, optei por não fazer uma injeção de insulina. Um dos motivos para essa decisão é também o fato de que meu companheiro de corrida, o Cláudio, ainda não sabe muito bem como lidar com um diabético em casos de hiperglicemia e hipoglicemias, e no caso de provas de aventura, outdoor, o resgate pode ser muito demorado, o risco de uma hipoglicemia durante uma corrida de aventura é muito perigoso para um atleta diabético.
Aproximadamente na metade da prova, chegamos ao neutral, um lugar onde podemos descansar por um período mais longo, e onde re-abastecemos as garrafas de água, e podemos comer algumas bananas, maçãs e melancias fornecidas pela organização. Bananas são muito ricas em potássio, que ajuda a evitar caimbras, e em carboidratos, o que eleva a taxa de glicose e evita hipoglicemias, as melancias tem muito carboidratos também, e as maçãs são mais ricas em frutose. Nesta etapa chegamos tarde demais ao neutral, e não havia mais melancias, uma pena, porque elas hidratam e ajudam a elevar a taxa de glicose.
No neutral minha glicemia capilar indicava uma taxa de 80mg/dl muito boa para uma prova que já durava mais de duas horas. Fazendo um grafico rápido minha glicemia começou baixa, subiu um pouco durante a prova, mas na metade da prova já estava em um nível que exigia atenção. 83 mg/dl é uma boa taxa antes de refeições e após períodos de jejum, mas neste caso, onde teriamos mais ou menos mais duas horas de corrida, e um grande esforço físico era esperado, o ideal foi comer bastante banana, algumas maçãs e mais uma barra de cereal diet.
Essa atitude evitou que minha glicemia caísse muito durante a prova, e me deu energia suficiente para chegar ao final das 4 horas e 18 minutos de prova com uma glicemia de 143 mg/dl, uma taxa considerada alta, porém aceitável visto a quantidade de carboidratos consumida no neutral e a adrenalina da competição.
Depois da prova, sempre procuro me alimentar bem, dessa vez, comemos uma empada com refrigerante e alguns biscoitos, essa atitude simples me permitiu dirigir de volta para Belo Horizonte sem nenhuma complicação. Se eu não tivesse me alimentado imediatamente após o termino da corrida, muito provavelmente em alguns minutos eu apresentaria sintomas de hipoglicemia. Um sério risco caso eu estivesse ao volante, na estrada, ou mesmo se ainda tivesse em Lavras Novas, uma cidade onde o acesso é muito difícil e não existem hospitais ou médicos especializados para um socorro imediato.


Eu não conseguiria correr tantos riscos! Parabéns!